O Automóvel na Cidade
Eu também sou dos que deixam o automóvel à porta
de casa, esperando a hora duma deslocação necessária, sem os
apertos do transporte colectivos. Sou um homem do século das
facilidades mecânicas, da vida em ritmo acelerado, das mil e uma
ocupações quase simultâneas em locais distantes e da permanente
falta de tempo nestes dias curtíssimos de agora, que só têm vinte e
quatro horas. Sou mais um dos centauros da nova espécie com cabeça e
tronco de homem, garupa e rodas de automóvel...
Mas a condição de automobilista, que me permite
exercer uma actividade profissional ao ritmo da época e algumas
deslocações agradáveis ainda não me impediu de observar, de
raciocinar e de acumular por essas vias sérias apreensões quanto ao
futuro da cidade em que vivo.
Receio muito que o modo como estão sendo
encarados os problema do trânsito e do estacionamento de automóveis
em Lisboa (ou como não estão sendo encarados, se preferirem) nos
reserve dolorosas surpresas. Entre outras, a de nos encontrarmos, num
futuro relativamente próximo, num cidade onde ainda se conseguirá
circular, mas onde as funções urbanas tradicionais - habitar,
repousar, produzir, conviver, recrear o corpo e espírito. etc.
- tenham sido excessivamente sacrificadas à imprevidência, à
descoordenação e a uma visão estreita e parcial dos problemas do trânsito.
Entendamo-nos ainda:
Não enfileiro entre os que trazem na manga,
prontas para impressiona o ouvinte ou o leitor, soluções salvadoras.
Nem mesmo acredito que problemas desta natureza tenham soluções
salvadoras - cabais, - completas definitivas. Tão complexo é o
encadeado de relações de causa-efeito, que os êxitos do momento
podem abrir os caminhos a novos problemas e dificuldades.
Mas creio que se consegue, com inteligência,
estudo, previsão e coordenação de esforços, um certo domínio
sobre as circunstâncias que nos compelem, ou afligem; e se pode, até,
tirar delas algum partido. Creio ainda que um importante passo para
que os problemas se resolvam da melhor maneira consiste em equacioná-los
devidamente. Objectivo que exige -e aqui toco em algo de essencial - não
apenas conhecimentos técnicos especializados e actualizados, mas uma
análise dinâmica dos problemas em causa, sem os desintegrar das
circunstâncias em que se processam e evoluem bem como das suas
interligações com variados outros problemas. No caso de que nos
ocupamos, essa verdadezinha elementar reveste-se duma importância
excepcional. Porque o automóvel não criou na Cidade apenas problemas
de trânsito, mas um encadeado de situações e dificuldades que
requerem solução conjunta com eles. F. Keil do Amaral, in Lisboa,
uma Cidade em Transformação.